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Puxa, nem acreditei quando vi meu nome na programação
do décimo primeiro Velocity na Áustria.
Já enviara meu Histórico - Volta ao Mundo e os resultados
do meu Projeto de divulgação do Cicloturismo havia
muito, mas só teriam 5 minutos para minha apresentação.
Fiquei decepcionado, entretanto, quando chegou a programação
final descobri que fizeram uma sessão especial onde eu poderia
falar por mais de uma hora e apresentar slides sobre minha viagem.
Uma palestra inteira sobre a volta ao mundo
em bicicleta, nada mais conveniente já que o pseudônimo
desta conferência internacional era “Cruzando Fronteiras”.
Cheguei à Áustria no sábado 09 de abril. Na
Segunda, já havia montado minha bicicleta e comecei a conhecer
de verdade a região.
Estava hospedado na casa de Sigrid, minha amiga
austríaca, em uma pequena cidade perto de Viena chamada Mödling,
onde vivia Beethoven.
A região é predominantemente
plana, mas perto da cidade há morros com belos bosques onde
o compositor costumava caminhar e conseguir inspiração
para suas obras.
As trilhas são bem sinalizadas, a mata não é
tão fechada quanto a nossa e o passeio pela trilha de Beethoven
não poderia ser mais bucólico.
Em meio a ruínas de castelos e templos,
de repente em uma descida surge um cruzamento. Na placa mostrava
a direção e uma partitura musical com a letra da famosa
“Missa Solene” a qual ouso esboçar uma tradução.
“Eu vejo que todas as árvores
falam comigo nesta mata.
Santa, santa!!! É um deleite estar
na floresta!!!
Quem poderia descrever isto?!?
O doce silêncio das árvores.”
Notz Beethoven 1815.
Sempre imaginei que a apreciação pela
natureza era uma reação do homem moderno a opressão
das grandes cidades, mas ao que parece, Beethoven se comunicava
de forma silenciosa com a natureza e reverenciava a importância
de cada árvore como um ser vivo numa atitude prá lá
de ecológica.
Continuando nosso circuito, chegamos a Baden. Cidade
famosa pelos vinhos.
Um pouco desta bebida pagã não faz
mal para ninguém, ainda mais se tomado direto da fonte produtora
como é servido nos bares pela cidade.
A boa técnica do cicloturista manda ir por
uma estrada e voltar por outra diferente, assim, deixamos os morros
de lado para regressar a Mödling através da planície
com vinhedos, ainda em broto, por todos os lados.
Apenas quarenta e poucos quilômetros em um
único dia e tanto para contar, é impressionante como
podemos ver e viver mais de cada região quando estamos em
uma bicicleta.
A primavera empurra o por do sol a cada dia para
mais tarde. Ainda houve tempo na segunda de pegar um trem e ir até
Graz onde seria realizado o Velocity99.
Quatrocentos participantes, mais de quarenta delegações
estavam representando 38 países na conferência, não
poderia deixar de encontrar os primeiros congressistas no trem.
Vestuário de esportista e a inconfundível
bolsa de guidão a tiracolo serviram como um “crachá”
para que eu reconhecesse Ted e seu filho. Cicloturistas escoceses
que após a conferência iriam, como eu, pedalar um pouco
pela Áustria.
Na abertura estava tudo muito “chique”.
Na mesa, os “grandes” da organização e
alguns dos responsáveis por transporte da Comunidade Econômica
e dos Estados Unidos.
Após os discursos, palestras sobre os mais
variados temas. A bicicleta é tão importante por aqui
que jamais é definida como um brinquedo de criança,
ao contrário, percebi que é considerada uma das melhores
soluções para o transporte de curta distância
em grande cidades modernas.
Principalmente na Europa, várias cidades passaram
a fechar sua região central para o tráfego de carros,
aumentando a importância deste veículo auto sustentável.
Em minha especialidade, tomei conhecimento de projetos
homéricos de circuitos cicloturisticos cruzando países
inteiros. São quase como rodovias nacionais para bicicleta.
Com o final do milênio os Estados Unidos e
a Inglaterra pretendem entregar a seus cidadãos e ao mundo
a opção de viajar em bicicleta. Isto parece coisa
só de país rico e de primeiro mundo, mas para minha
surpresa Romênia, Eslovénia, República Tcheca
e Polônia também já estão adiantados
nestas idéias, demonstrando que o cicloturismo é uma
questão de consciência de desenvolvimento turístico.
Não faltou pompa e luxo. Jantar com o Prefeito
de Graz. Viagem de “Maria Fumaça” até
Maribor na Eslovénia (onde desenvolveu-se parte da conferência),
banda de música, espetáculos típicos e uma
escolta policial muito especial, de bicicleta, é claro.
Sexta-feira, último dia de congresso. Ainda
consegui tempo para visitar uma das maiores coleções
de armas e armaduras antigas do mundo. Em Graz está o único
museu onde o arsenal está guardado em um prédio original,
tal como na época antiga.
Em meio as despedidas e abraços ficaram duas
importantes lições.
A primeira foi no discurso do secretário de
transporte da comunidade européia quando conclamou aos presentes
a responsabilidade para comandar mudanças no sistema viário
em seus países. A outra, foi nas palavras de Ted ainda no
trem para Graz:
A humanidade está como um navio em rota de
colisão contra um “iceberg”. Entretanto, basta
apenas um pouco de consciência e mudança de pequenas
atitudes para mover alguns graus na trajetória desta embarcação
e evitar a eminente catástrofe da poluição
e neuroses nas grandes cidades.
Cheguei em Mödling na Sexta à noite, no Domingo comecei
a viagem rumo ao ponto inicial do circuito de bicicleta.
Eu e Sigrid não tínhamos muito
tempo, então resolvemos aproveitar as facilidades de um país
onde a bicicleta é realmente considerada como um veículo.
Na Áustria, sempre há uma forma de se viajar com sua
bicicleta. Há locais especiais para se carregar bicicleta
no metro, e até nos trens de longa distância oferecem
um vagão especial para as bikes.
A temperatura era amena na região de
Viena, mas quando chegamos em Wald, já em meio aos vales
Alpinos encontramos os campos cobertos de neve.
O Sr. Alfredo, nosso anfitrião e amigo
de Sigrid, disse que nevara na noite anterior e que isto não
era muito comum nesta época do ano.
Wald é uma cidade perto de Krimml onde
está a mais famosa cachoeira do país. Ela desse em
degraus por uns 400 metros.
O dia estava ensolarado e resolvemos seguir
pelas ciclovias. Entretanto, o que deveria ser ciclovia tornou-se
uma pista de esqui cross country. A neve encobria toda a superfície
da estrada e não foi fácil vencer o trajeto. Claro
que na neve fofa, pouco se pedala e mesmo assim a neve encravava
em todos os lugares da bike igual a lama. Empurrei bastante mas
no plano e na descida ia pedalando, digo, deslizando.
Da cachoeira fomos ao marco inicial de um dos
circuitos ciclísticos mais conhecidos da Europa.
O circuito de Tauern costuma receber 70.000
ciclistas por ano e é por ele que começamos nossa
viagem rumo a Viena.
Minha companheira Sigrid costumava pedalar
uns 20 a 25 km umas duas vezes por semana, sendo assim, não
estava em condições físicas para subir comigo
o passo de Gerlos a 1628 metros de altitude.
A subida não é exageradamente
grande nem tão íngreme, mas nesta região e
época do ano, muita coisa muda em 10 km.
Logo o sol desapareceu atrás das nuvens
e eis que de repente começa a nevar em plena primavera.
Um espetáculo lindo, parecia que era
feito para mim, já que eu era um dos únicos veículos
da estrada e ninguém mais que um sul americano para valorizar
esta neve temporona.
O passo é a parte mais alta de uma travessia
de montanha e o Gerlos ainda é a divisa entre os estados
de Salzburgo e Tirol.
No topo dos 1628 metros tive que trocar minhas
roupas umedecidas pela transpiração por outras secas
e mais grossas a fim de suportar a congelante descida. Não
há exercício e o vento tira todo seu calor, o peito
funciona como um radiador de carro.
Voltei para Wald pela estrada antiga, ainda
mais bonita e sinuosa. Depois do esforço da subida o sol
reapareceu como um presente e fazia tudo brilhar muito mais; montanhas,
árvores e até as casas cobertas de neve nas cidadezinhas
lá em baixo no vale. Outro deleite!
Quando cheguei na casa do Sr. Alfredo, Sigrid
me esperava para um super lanche com os mais variados pães,
queijos, mel e tudo o que se pode esperar desta região.
Durante à noite, a temperatura baixou
para –4C e a neve não parou de cair.
Na manhã de Terça-feira dia 20
de abril o sol brilhava como nunca e refletia em todas as superfícies
cobertas de neve, lindo!!!
Com esta paisagem começamos a pedalar
logo depois do café da manhã.
Fiquei impressionado! Durante quase todo o
trajeto (inclusive até Viena) pedalamos por ciclovias, algumas
vezes passamos por estradas rurais quase sem movimento de veículos
automotores, mas sempre bem pavimentadas com asfalto ou brita.
Passei a entender porque 70.000 ciclistas fazem
este circuito todos os anos, ele é de grande beleza e relativamente
fácil.
As estradas na Áustria seguem pelos
estreitos vales e em meu caso, seguindo da serra para a planície,
o caminho era sempre levemente em decesso. Esta característica
une as facilidades de pedalar no plano com a beleza das serras que
estão dos dois logos.
Como se não bastasse a beleza das montanhas,
a natureza resolveu ser ainda mais pródiga com esta região.
Quando passamos por Zell fizemos um lanche as margens do lago. A
paisagem mistura o verde da grama, o branco da neve e dos cisnes
com a água do lago e ao fundo, mais uma cidade típica.
Dois dias bem pedalados e já chegamos
em Salzburgo. Começou a chover e estávamos cansados.
Muito conveniente, pois era hora de conhecer as atrações
desta famosa cidade cujas raízes remontam aos Celtas e Romanos.
Focamos nossas visitas às várias
ciclovias e praças que se espalham por toda a cidade aproveitando
a primavera que emergia no colorido das flores, principalmente das
papoulas.
Claro, sem deixar de visitar o rico acervo
Histórico - Volta ao Mundo deixado pelo mais brilhante filho
da terra, Wolfgang Amadeus Mozart.
Aí uma dica, não perca muito
tempo na casa onde nasceu Mozart. Ele nasceu meio pobre; a grande
riqueza está mesmo na casa onde ele vivia, hoje um museu
muito especial. Ao entrar recebemos um tipo de rádio que
colocamos no ouvido e ao aproximarmos de cada peça podemos
ouvir sua importância histórica e mais que isto, começa
a tocar as músicas do mestre. Separe boas horas para ver
e principalmente ouvir tudo.
Com os ânimos restabelecidos após
o descanso enfrentamos uma das únicas grandes subidas de
todo o percurso. Após Salzburgo temos que subir para chegar
ao próximo vale.
Nova altitude novas vegetações
e animais. Pequenos alces a beira da pista ou mesmo atravessando
nossa frente.
Novos lagos espetaculares como Wolfgang e Traunsee.
Cidades como Bad Ischl, escolhida pelo imperador para fazer caçadas
de veraneio.
Logo as montanhas iam ficando cada vez mais
para traz dando lugar a planície. Em Linz finalmente encontramos
com o Rio Danúbio que passou a nos guiar.
Dormimos em Enns a cidade mais antiga da Áustria,
(fundada em 1.212).
Na manhã seguinte já era o oitavo
dia em que realmente pedalamos, Sigrid já estava muito impressionada
com seu bom desempenho na bicicleta, mas desta vez ela superou qualquer
expectativa. Pedalamos 105,5 km em um único dia. Em apenas
oito dias de viagem ela já havia conseguido uma forma física
compatível com uma grande viagem de bike e mais que tudo
superara uma marca que sequer imaginara fosse possível de
alcançar.
Isto demonstra o quanto o cicloturismo é
viável mesmo para quem não está acostumado
a forte treinamento físico como ela.
Imaginei que a planície às margens
do Danúbio seria entediante, mas era final de abril e as
flores da primavera estavam desabrochando por todo lado, das plantas
silvestres aos vinhedos e macieiras, uma verdadeira explosão
de cores e perfumes. A estação mais colorida da Europa
neutraliza qualquer tédio ou cansaço.
O som do pneu rolando na ciclovia e o perfume
das flores eram meus privilégios como cicloturista.
Depois de 11 dias chegamos em Viena, pedalamos
645,6 km de um circuito que até mesmo a mais sedentária
das pessoas iria apreciar e teria condição de realizá-lo
por inteiro.
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