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FÉRIAS LIBERTÁRIAS
Logo que cheguei com o Prjojeto de Cicloturismo à
região de Ouro Preto percebi que seria muito difícil
realizar um roteiro para cicloturismo. Meu maior desafio era escolher
o melhor de uma região onde há tantos sítios
históricos e belezas naturais.
Consultei os espertos da área (Tico Rico,
Fiote, Anderson dentre outros) e a sugestão foi unânime:
Algo na porção leste de Belo Horizonte.
Fiquei animado em começar o circuito a partir
de Caeté, não só porque evito a região
periférica da grande BH, mas por que é a cidade berço
da guerra dos Emboabas .
Muitos classificam esse movimento como fruto puramente
da ganância dos garimpeiros, mas há quem diga que nela
se mostrou, pela primeira vez em nosso país um sentimento
nacionalista. Como parte da formação histórica
do estado de Minas Gerais, na Guerra dos Emboabas proclamou-se Manoel
Nunes Viana governador sendo considerado o primeiro ditador a ser
erigido na América (dezembro de 1707 conforme dados históricos apurados junto a prefeitura de Caeté).
Pergunte pela praça dos emboabas, e comece
a pedalada a partir da estátua dos combatentes. Os primeiros
25km até Barão de Cocais são em terra e o restante
asfalto até Santa Barbara e o Caraça.
Logo constatei uma das grande dificuldades que um
cicloturista fatalmente perceberia neste trajeto. A maior parte
de Minas Gerais compõe-se por montanhas, sendo assim, qualquer
circuito que mapeasse teria a característica de ser bastante
duro.
Não há longos aclives, mas todo caminho
é cheio de subidas e descidas radicais que desgastam bastante,
talvez mais do que muitas travessias em grande altitude que realizei
na Europa.
O melhor a fazer é concentrar na bela paisagem
e pensar que o caminho pedalado é o mesmo percorrido pelos
Reis brasileiros quando visitavam a região das Minas do Ouro,
a chamada “Estrada Real”. A bicicleta proporciona, nesta
hora, uma velocidade maior que a dos veículos da época
mas, mesmo assim, é uma velocidade “natural”
onde pode-se observar cada detalhe do caminho.
Falando em ouro, o trajeto atravessar uma mina de
verdade e em pleno funcionamento.
A mina do Gongo Soco já produziu muito ouro
“... de onde o ouro saía com tamanha abundância
que pareceu aos escravos um castigo e era, em montes, seco ao sol
em grandes couros de bois.” Conforme descrito em relatos históricos. Agora, seu forte é minério de ferro.
Muito pó, caminhões carregados, agitação
organizada de lá e de cá para sacar toneladas de terra
misturada ao metal. Montanhas inteiras sendo transformadas em buracos
profundos para suprir a demanda internacional. Acho que mesmo em
meu câmbio Shimano conseguiria reconhecer metal brasileiro.
A par da destruição, os terraços
formam um desenho surrealista de cores e brilhos do metal aflorando.
Algumas ruínas a beira da estrada ainda persistem
e contam a história de épocas onde viviam mais de
setecentos escravos trabalhando em busca de ouro.
As distâncias em quilômetros são
pequenas, mas não devem enganar o cicloturista. Ao visitar
os acervos históricos e curiosidades das
vilas e cidades do caminho (Vila do Gongo, Barão de Cocais
e Santa Bárbara) não deixe de abastecer as caramanholas,
pois não é fácil obter água pelo caminho.
No 41,06 km há uma placa indicando “Pousada
Pico do Sol”, já estamos quase na portaria da maior
preciosidade ecológica do percurso, o Parque Estadual da
Serra do Caraça. Abrem-se então as únicas opções
de camping: Selvagem ao lado de um rio a 700 m da estrada ou, se
preferir mais estrutura, pode se acampar ao lado da própria
pousada. Infelizmente não é permitido acampar no Parque
(nem tudo é tão ruim no parque, pelo menos bicicletas
não pagam).
Quem já não estiver bem das pernas
poderá usar estas estruturas para descansar a noite, pois
a subida até a sede do parque é descomunal (Veja o
Gráfico).
Os que preferiram dormir embaixo perderão
a chance de presenciar a visita do lobo guará que vem quase
todos os dias saborear os restos do jantar dos hóspedes do
convento. Já bem acostumado ao flash o animal nem interrompe
sua refeição, entretanto se afugenta ao menor sinal
de movimento da platéia curiosa.
Além da beleza das inúmeras trilhas
e cachoeiras, a tranqüilidade do mosteiro e as belas formas
da pequena Igreja gótica fazem o charme do lugar. Afinal,
qual foi a última vez que você pode dormir em um mosteiro
de verdade, igualzinho aos dos filmes da idade média?
Mesmo com maior trecho asfaltado, o segundo dia é
ainda mais difícil, pois é longo e termina com subidas
íngremes (104,03 km a partir do Caraça com 14 km em
terra - atenção a planilha e o gráfico começam
a partir do trevo na rodovia que dá acesso ao parque).
A maior beleza do segundo dia está nas primeiras
horas enquanto circundamos toda a serra do Caraça e observamos
cada pequena formação. Uma visão privilegiada,
pois a maior parte dos visitantes chega ao parque pelo norte (BR262)
e nunca vê as montanhas pelo leste. Com a luz da manha o sol
faz a rocha brilhar como se fosse de puro metal.
A estrada não poderia ser melhor, asfalto
novo e quase sem movimento, o pessoal do Speed vai adorar.
Mais plano que no dia anterior o caminho passa por
outras minas de ferro. Depois de Catas Altas, chega-se a mina Alegria
que é bem maior e mais equipada que a Gongo Soco. Pode-se
pedalar ao lado de carregadeiras com capacidade de 120 t (uma carreta
normal carrega até 40 t).
No km 52,27 da planilha (71.78km pedalados no dia)
há uma lagoa ideal para o camping selvagem, boa opção
para aqueles que estiverem cansados ou que desejam conhecer cuidadosamente
em outro dia as cidades históricas de Mariana e Ouro Preto.
Quem tem bom pique pode continuar e chegar até
a praça Tiradentes, descansando na cidade de Ouro Preto completando
assim o segundo dia.
Pensei muito antes de escolher este trajeto para
mapear. Gostaria de fazer algo que agradasse a todos, turistas comuns
e cicloturistas experimentados.
Ao visitar as atrações de Ouro Preto
não pude deixar de passar na sala onde estão sepultados
aos inconfidentes. Dentre as várias tumbas, a maior e em
destaque é a de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.
Imediatamente fiquei arrepiado e com orgulho exclamei:
- Nosso grande herói!!
Meu amigo Zé Maurício comentou:
- É, mais a coisa não é bem
como se conta no primário.
Ele se referia ao fato de que, na verdade, Tiradentes
nunca ocupou cargo importante na insurreição, que
jamais foi um dos grandes teóricos, talvez fosse somente
um garoto de recados.
Respondi a ele que acreditava que o heroísmo
de Tiradentes estava justamente na coragem de assumir suas idéias
de liberdade frente a repressão portuguesa e a determinação
de levar isto até as últimas conseqüências.
Não importava o que ele fazia (seu posto), mas como ele fazia
(sua convicção).
Neste momento tive a certeza de qual roteiro planilhar.
O circuito Caeté – Ouro Preto pode atender a cicloturistas
experimentados ansiosos por aventura e em busca de regiões
naturais e vão concretizá-lo em apenas dois dias,
mas também pode levar pessoas com pouco relacionamento com
a bicicleta a um passeio belíssimo e tranqüilo por algumas
das cidades históricas de Minas com seu próprio veículo
de “velocidade natural” pousando em cada cidade do caminho.
Minhas preocupações em fazer um bom
roteiro são iguais a de qualquer turista ao planejar sua
viagem - conhecer mais e melhor - . Percebi que pouco importa a
distância que se caminha, mas como se percorre o trajeto.
Mesmo que ocupe toda uma semana das férias para percorrer
158 km o aproveitamento está em libertar-se da “velocidade”
do turismo tradicional e viver sua própria liberdade de ir
para lá e para cá.
Com a bike tem-se autonomia para decidir seu trajeto
e sua velocidade fará com que não perca os detalhes
de cada casarão, cada igreja e cada curva de relevo desta
região maravilhosa.
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