Em maio de 2017 voltamos à região de Mariana para verificar a situação no trecho do CAMINHO DOS DIAMANTES atingido pelo rompimento da barragem da Samarco. Infelizmente a estrada ainda está bloqueada. Mapeamos um trajeto alternativo, descrito NESTE ARQUIVO. Basta baixar e imprimir o conteúdo. As demais informações já estão em seu GUIA ESTRADA REAL CAMINHO DOS DIAMANTES.


SAIBA COMO ADQUIRIR O GUIA E. R. CAMINHO DOS DIAMANTES


O antes e depois do desastre:


Juntamente com toda a nação brasileira, recebemos com muito pesar a notícia do rompimento da barragem da Samarco nas proximidades do distrito de Bento Rodrigues/MG, em 05 de novembro de 2015.

Além das vidas humanas perdidas e do terrível impacto ambiental, sabíamos que o descaso na condução dos trabalhos de mineração havia causado outras perdas irreparáveis.

A irresponsabilidade na gestão dos rejeitos da mina destruiu a história de vida dos habitantes desta localidade, juntamente com um pedaço da história do nosso país.

Qual a importância de Bento Rodrigues? Afinal, é só um distrito afastado de Mariana.

Talvez seja uma coincidência, mas a capa e a contracapa de nosso guia foram feitas com fotos tiradas nessa região. Um cicloturista vive mais o caminho que os pontos de chegada ou partida, talvez por isso sintamos tanto pesar por esta perda.

Em nossas experiências de viagem, aprendemos que, seja qual for a tragédia ocorrida em um local, por mais remota que seja a localidade, os habitantes desenvolvem maneiras precárias, mas eficientes, para retomarem o tráfego, e quem está a pé ou de bicicleta pode aproveitar estes mesmos meios de travessia, em uma pequena canoa, lombo de burro ou mesmo carregado a bicicleta às costas morro acima.

Imaginávamos que em Bento Rodrigues seria igual, mas dessa vez, este princípio geral não se repetiu e, dois anos depois da tragédia, não tivemos nenhuma notícia de colegas cicloturistas que tivessem atravessado pela região. Terminados os trabalhos do Guia Circuitos do Sul, partimos imediatamente para Mariana a fim de estudar uma solução para o problema.

Segundo o site do Instituto Estrada Real, tanto um cavaleiro, como um caminhante ou um cicloturista, deveriam fazer o trajeto de Santa Rita Durão até Mariana de ônibus, ou então dar uma volta por um caminho chamado de Sabarabuçu, que é quase a metade do comprimento de todo o Caminho dos Diamantes. Ora, este tipo de solução não nos parece um conselho que um cicloturista oferece a outro cicloturista…

Este ponto do texto é um bom momento para o cicloturista brasileiro conhecer melhor a realidade do Instituto Estrada Real, por isso pedimos ao leitor que veja atentamente a entrevista que fizemos com o idealizador do Projeto Turístico Estrada Real, Attila Godoy, em São João Del Rey, que está logo no início deste post. Como Geólogo, testemunha dos fatos através de anos de experiência e lida com o Instituto e grandes mineradoras, ele explica como funciona uma mina, as razões do acidente, as possibilidades de recuperação e, principalmente, qual o papel que o Instituto Estrada Real tem tido durante esses anos de existência. Após ver a entrevista, acreditamos que ficará mais fácil compreender as razões das ações e omissões do Instituto Estrada Real.

Agora que você já viu a entrevista, voltemos às constatações de nosso trabalho de campo: a partir de Mariana, a estrada termina no ponto 22,09 da planilha MARIANA-CAMARGOS-BENTO RODRIGUES, a ponte de madeira que aparece em nosso documentário foi levada pela lama. A partir Santa Rita Durão (cerca de 5,60 km da cidade), a estrada, que a rigor é pública, está interrompida por um portão de ferro, com segurança privada paga pela Samarco.

Nosso conselho ao cicloturista é desviar pela rodovia de asfalto MG 129, passando por Antonio Pereira, conforme mostra no mapa do circuito em seu guia e nesta atualização gratuita.

Para quem ainda acredita nas informações do site do Instituto Estrada Real, aconselho fazer uma pequena enquete nas mídias sociais, averiguando junto aos colegas ciclistas de Mariana sobre a frequência do uso da MG 129 como pista de treino. Particularmente, costumamos acreditar muito mais em um ciclista que em alguém que só usa o carro como veículo.

Em nossos trabalhos de campo vimos vários ciclistas pelo caminho, desde fortes atletas top de linha até ciclistas rurais se deslocando para algum centro urbano.

Mas não é perigoso, Olinto?

Sim, é perigoso… É muito mais perigoso que ficar em casa vendo televisão…

Quando tomamos o protagonismo do filme de nossas vidas assumimos vários riscos, o risco está muito conectado à própria aventura, sendo ele aparente ou não. Entretanto, podemos afirmar que a MG 129 não é mais perigosa que outras tantas estradas que um cicloturista terá que passar em sua vida de viagens e treinos. Afinal, infelizmente, em nosso país, o trânsito mata mais que vários conflitos armados ocorridos pelo mundo afora, e nem por isso as pessoas deixam de ir ao trabalho ou até a cidade ao lado com seus veículos.

Espelho retrovisor – equipamento de segurança obrigatório e essencial para pedalar em rodovias.

Espelho retrovisor, cuidado e atenção são os ingredientes fundamentais para superar os riscos do dia a dia de viagens, treinos e uso urbano de qualquer veículo.

No geral, viajar de bicicleta nos mostra um mundo mais fraterno que aquele exposto na mídia, a MG 129 nos mostrou um grau de respeito acima da média que esperávamos. Talvez por já ser consagrado como campo de treino de ciclistas ou simplesmente por ser o montain bike um esporte popular no estado de Minas Gerais.

Em nossos dois guias da Estrada Real, procuramos ser muito fiéis ao leito histórico da estrada utilizada no princípio do desenvolvimento da região das minas – este é o espírito deste guia, “O Caminho dos Diamantes”.

(Fonte: https://www.wdl.org/pt/item/854/)

Vamos às razões históricas deste novo circuito: observando a data (1779) e o traçado do mapa ao lado, é fácil notar que havia um caminho direto entre Ouro Preto (Vila Rica) e Catas Altas, passando por Antonio Pereira. Se imaginarmos como era feito o deslocamento a norte em 1700 (época do ouro), percebemos que o roteiro direto (Ouro Preto-Antonio Pereira-Catas Altas) era mais lógico, pois os primeiros exploradores faziam o caminho a pé, em linha reta, preferencialmente pelo alto dos morros, onde a mata é menos densa (cavalos e burros foram animais trazidos pelos europeus). Em qualquer ponto da estrada que tenha uma vista da mata nativa do vale do Rio Doce, um cicloturista pode imaginar como deveria ser difícil se deslocar por essa densa floresta, isso sem falar nas dificuldades de orientação e defesa. O caminho passando por Mariana e Bento Rodrigues tornou-se tradicional na época dos Diamantes, quando o poder político de Mariana já era forte e os vales já estavam desmatados. Para um cicloturista, acreditamos que valha a pena dar a volta e passar por Mariana.

Igreja Queimada – Antonio Pereira

Conforme comentado no corpo do guia, a região das minas sofreu períodos de fome e, entre 1700 e 1701, o bandeirante português Antonio Pereira chegou à região com o intuito de produzir víveres para as áreas mineradoras. Assim como em outras cidades, esta operação se mostrou muito lucrativa de forma que, por volta de 1716, uma grande igreja matriz já estava erguida. Em 1830 um incêndio destruiu todo o madeiramento da igreja, mas deixou exposto até os dias de hoje a magnitude de sua fachada, alicerces e paredes: uma atração rara para a região das minas, cuja grandeza faz lembrar os Sete Povos das Missões, no Rio Grande do Sul. Como jamais foi restaurada, a população local passou a utilizar a área interna como cemitério, aumentando ainda mais a originalidade deste atrativo (veja mais imagens no final deste post).

Acreditamos que só por este monumento já valeria a pena a parada, mas a cidade ainda possui outras atrações como a Gruta de Nossa Senhora da Lapa e um garimpo de Topázio Imperial ainda em atividade. Esta tonalidade de topázio é única no mundo.

Seguindo a norte de Antonio Pereira o movimento de veículos diminui, mas aumenta um pouco o volume de caminhões a serviço das mineradoras, afinal, Mariana e Catas Altas tem pouca relação, ambas comercializam diretamente com a capital utilizando outras rodovias. Não é à toa que a MG 129 foi asfaltada antes da histórica Estrada Real, é ela que faz o acesso às minas da Samarco, ou seja, foi o poder econômico que ditou a prioridade na construção do asfalto.

A MG 129 está a oeste do caminho interditado, como consequência o cicloturista poderá ver melhor e mais de perto as belas formações da Serra do Caraça. No caminho o cicloturista passará também ao lado das minas e verá o trabalho dos caminhões gigantes, movendo cerca de 345 toneladas de terra e minério de uma só vez.

O caminho passa ao lado de outra barragem da Samarco (Germano), mas fique tranquilo, você irá pedalar pela parte alta, mesmo que ela venha e se romper também, você estará a salvo.

Se as imagens da tragédia não estivessem tão recentes em nossa mente e não estivessem tão associadas à morte de pessoas e da natureza, poderíamos dizer que a vista do alto da barragem é linda e surreal! Parece um salar, mas tem várias e belas cores que contrastam com o verde ao redor, ressaltando o vivo e o morto.

Após 32,25 km o cicloturista já poderá sair da MG 129 e seguir em direção a Santa Rita Durão, continuando normalmente sua viagem pelo Caminho dos Diamantes, ou se tiver pressa, poderá continuar por mais 1,72 km e reencontrar as planilhas do guia conforme indicado. Os caminhantes terão dias duros, mas poderão continuar seu caminho a pé sem depender de veículos automotores.


CLIQUE AQUI PARA BAIXAR GRATUITAMENTE A ATUALIZAÇÃO


SAIBA COMO ADQUIRIR O GUIA E. R. CAMINHO DOS DIAMANTES


Veja algumas imagens do trajeto mapeado:

compartilhe!
Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedintumblrmailFacebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedintumblrmail