Mesmo com toda a modernidade as autopistas alemãs
ficam longe de ser um deleite.
Incrivelmente planas, parecem um tapete, não há
comparação com qualquer outro país que
passamos, mesmo assim, são públicas e sem pedágio.
Este fato faz com que elas sejam ainda mais assediadas do
que o seriam simplesmente pela posição estratégica
do país. O tempo todo existe um fila de caminhões
no seu lado direito seguindo a 110 km/h e do seu lado esquerdo
super máquinas correndo como em uma competição
da F1.
Num dia ocorreu um acidente na estrada. Em segundos havia
um engarrafamento monstruoso sem chance alguma de retorno,
pois havia uma fila incrível de carros atrás
de nós. Não vimos nada do acidente de tão
longe que estava. Aguardamos uma tarde inteira até
que um helicóptero levou as vítimas e abriram
a estrada novamente.
Decidimos fazer o percurso sem utilizar barcos e atravessamos
a ponte nova, que liga Dinamarca até Suécia.
Linda!!! Mas Caaaara! O pedágio custou por volta de
US 50,00- que tal?!
Há quem prefira seguir de barco direto para Oslo, pois
a viagem de ferry pode ser à noite e o valor não
é muito maior que o custo de toda volta feita de carro.
Sabíamos que tudo seria muito mais caro fora da Alemanha,
carregamos o carro com o máximo de comida que podíamos
levar. Além disto, não poderíamos utilizar
euro até que finalmente chegássemos à
Finlândia.
Dinamarca e Suécia fazem parte da Comunidade Européia,
mas não utilizam o euro. A Noruega nem se interessa
em fazer parte da Comunidade, tamanho é seu desenvolvimento.
Imaginem como é o custo de vida em um país deste!!!
É só atravessar a fronteira e as coisas começam
a mudar. Que gente bonita vive nestes países!
Não foi fácil planejar esta viagem. Queríamos
concentrar a viagem nos países escandinavos, sabíamos
que a parte mais interessante seria o recortado litoral da
Noruega. Decidimos explorar em duas etapas: como teríamos
que entregar o motor home no norte em data pré-estabelecida,
primeiro faríamos a parte norte da Noruega e depois,
na volta, faríamos a parte Sul.
Não demorou para chegar em Oslo (capital da Noruega),
agora era só chegar até o Cabo Norte (ponto
extremo norte da Noruega e da Europa) . Somente um detalhe:
de Oslo até o Cabo Norte é mais longe que de
Oslo até Roma...
Para dificultar mais ainda nossa longa jornada, as estradas
que seguem para o norte são muito estreitas, e a velocidade
máxima é 80 km/h, muitas vezes até menos
que isto. Haja paciência..... Passávamos horas
no carro para concretizar uns 400 km no dia.
Quanto mais ao norte, mais horas de sol por dia, quero dizer,
quando víamos o sol atrás das nuvens.
Depois de vários dias dirigindo sem descanso, meio
que sem querer, pegamos um desvio na estrada, subimos um morro
íngreme e chegamos no belíssimo parque nacional
Rondane.
O por do sol foi maravilhoso, as nuvens tomaram um tom avermelhado,
parecia que começara um enorme incêndio no vale.
De noite a temperatura chegou a ficar negativa.
Gostamos tanto do lugar que decidimos fazer uma caminhada no
dia seguinte durante a parte da manhã.
Como é fácil fazer caminhada na Noruega. Primeiro
está tudo muito bem sinalizado com placas e uma letra
"T" pintada em vermelho em pedras pelo caminho.
Outra coisa que muito me chamou a atenção e
que denota o grau de civilidade e evolução de
um povo: havia uma placa explicativa com pelo menos uma dezena
de "you can" (você pode) e nenhum "não
pode" como se vê no resto do mundo. Do tipo "você
pode fazer fogo", "você pode trazer seu animal
de estimação". Claro que haviam também
avisos de como e quando, mas a regra é a permissibilidade.
Aliás, devo fazer um comentário interessante
sobre os países escandinavos. As pessoas de lá
gostam tanto de acampar e da vida ao ar livre que existe uma
lei chamada "o direito de todas as pessoas". A lei
diz que qualquer um pode acampar onde queira desde que respeite
uma certa distância da residência dos proprietários.
Na prática eu tinha o direito de ficar até 48
horas com meu motor-home onde eu quisesse e nas montanhas
poderia ficar onde quer que fosse o tempo que quisesse.
Não sou um grande caminhante, mas senti que poderia
ficar um mês inteiro caminhando nas montanhas do parque.
Ao invés disto, dirigi uns 400 km só na parte
da tarde... Continuamos até Trondheim para uma pequena
visita. Adoramos a igreja da cidade, ela segue o estilo gótico
e possui uma particularidade muito divertida, olhem só
a gárgula da lateral esquerda. (gárgula é
como um acabamento para as calhas de uma grande igreja, geralmente
possui motivos aterrorizantes como monstros ou demônios).
Quanto mais para o norte mais belas ficavam as paisagens,
principalmente quando encontrávamos um fiorde ou um
lago.
A luz do dia também durava mais e mais tempo até
o momento em que finalmente cruzamos o Circulo Polar Ártico
no paralelo 65,5, quando começamos a experimentar o
dia eterno. Nesta latitude durante esta época do ano
o sol nunca se põe.
Quando a estrada atravessa o Círculo, ganhamos um pouquinho
de altitude e isto faz com que a paisagem mude violentamente
para algo semelhante a um deserto gelado, como imagino que
deva ser o verão na Sibéria.
É interessante pensar que se estivesse no mesmo paralelo
sul, eu já estaria dentro da Antártida.
Outro detalhe interessante é imaginar que este mesmo
paralelo passa no interior da Groenlândia e já
bem ao norte do Canadá. Não fosse a corrente
do Golfo, a Escandinávia teria um inverno tão
rigoroso como o daqueles países.
Não paramos muito tempo, queríamos chegar logo
em Lofoten. Para nosso deleite o clima começou a melhorar
e pudemos apreciar pela primeira vez os raios de sol da meia
noite por trás dos belíssimos morros da ilha
de Lofoten. Realmente foi a coisa mais bonita que vimos até
aquele momento da viagem.
Ainda não podíamos fazer grandes paradas mas,
a qualquer momento do dia em que a chuva parava e saia o sol,
estacionávamos o motor home e fazíamos um pedal
qualquer. Para onde quer que fossemos havia algo de belo para
ver.
Conseguimos chegar exatamente no dia 21 de junho no Cabo Norte.
Estávamos a mais de 70 graus de latitude, justamente
no dia mais longo do ano, mas o sol insistia em manter-se
atrás das nuvens.
No caminho, todo o tipo de gente. O Cabo Norte é um
marco tão importante quanto o Ushuaia. Muitos têm
o sonho de um dia chegar até lá, cada um a sua
maneira. Parece que é um fim em si. Motor-homes às
dezenas, motos e carros modernos ou clássicos, lambretas
e algumas bicicletas. Na volta cruzamos com um senhor vestido
com roupas de época pedalando uma bicicleta daquelas
antigas com uma roda gigante na frente e uma pequenininha
atrás.
Geralmente eu procuro apreciar mais o caminho que o ponto
da chegada. Desta vez o visual daquele litoral recortado justificava
inteiramente minha filosofia.
Depois do Cabo, seguimos para leste em direção
com fronteira da Rússia. O afluxo de carros diminuiu
muito e o visual ficava cada vez mais exótico, parecia
tundra.
Chegamos em Kirkenes no dia do aniversário da Rafaela
e recebemos um belíssimo presente. O céu abriu
de uma forma magnífica e pela primeira vez pudemos
realmente apreciar o fenômeno do Sol da Meia noite.
Quando estava pesquisando sobre a viagem recebi um mail que
falava sobre isto. O mail mostrava uma seqüencia de fotos
do sol baixando e depois subindo novamente. Em Kirkenes nós
ficamos com o motor-home estacionado de frente para o mar
e vi todo o fenômeno.
O sol vai descendo no oeste como em qualquer lugar do mundo.
Quando chega, visto a olho nú, perto de um palmo do
horizonte, ele se mantém e começa a andar de
lado, sempre a mesma distância do horizonte. A meia
noite o sol está exatamente no norte e continua seu
caminho até o outro dia, quando começa a subir
novamente já do lado leste. Claro, é fantástico.
Estava terminada a primeira etapa da viagem, sentíamos
grande ansiedade para começar logo a pedalar, mas esta
história fica para próxima semana.