O objetivo desta viagem é cruzar os "Passos"
de fronteira existente entre Chile e Argentina, na porção
ao sul de Mendoza e norte de Bariloche.
O "passo" de montanha é considerado o ponto mais
alto na travessia de uma montanha. A partir deste ponto o caminho
para de subir e começa a descer. Como a divisa entre Chile
e Argentina é a própria Cordilheira dos Andes (uma
linha imaginária que vai de um pico a outro das altas montanhas)
em sua maioria os passos de montanha são, também,
passos de fronteira.
Desta forma sigo a mesma idéia da viagem que fiz entre 2000-2001
quando atravessei os 7 maiores passos da América (ver história
"7 Passos Andinos" em minha web page).
Gosto muito de montanhas e cruzando a Cordilheira de um lado para
o outro me delicio com suas formações, a lenta mudança
do relevo e da vegetação de um lado e do outro assim
como de norte a sul.
Na porção norte, já visitada, estão
os passos mais altos com quase 5.000 m de altitude. No trajeto que
pretendo realizar ao sul de Mendoza os passos são mais baixos
mas acredito que igualmente belos devido ao surgimento de vegetação
e maior precipitação de neve.
PREPARAÇÃO
A DOENÇA
Em janeiro de 2004 fui diagnosticado com câncer.
Inicialmente, como muitos, associei a doença com a própria
morte. Imaginei que provavelmente seria minha hora de ir e me consolava
por ter vivido intensamente até então.
Em minha primeira consulta com um especialista, Dr. Renato Prado,
tentava descobrir quanto tempo me restava de vida e imaginava como
iria aproveita-la.
Que nada, descobri que meu câncer tinha até 95% de
chances de nunca mais voltar após o tratamento. Não
era o caso de aproveitar meus últimos momentos, mas sim de
enfrentar o difícil tratamento.
Realizei então duas cirurgias, sendo a segunda delas de
grande porte. Um corte que atravessou todo o abdome.
Mal me recuperei de uma, já voltei para outra. A luta contra
um câncer agressivo como o meu é uma prova contra o
relógio, não há tempo a perder. Recém
recuperado da segunda começaram as sessões de quimioterapia.
Taí algo que não fui preparado para enfrentar.
Mesmo quando pedalei pela primeira vez em altas montanhas eu sabia
que cada dia de sofrimento e esforço me capacitava para o
próximo dia e o próximo desafio. A cada nova manhã
me sentia mais forte, dos Pireneus para os Alpes e destes para os
Himalaias.
Na quimioterapia a coisas são diferentes, a cada dia me
sentia mais fraco e sem vida. Ficava uma semana no hospital recebendo
o "remédio" pela veia durante o dia todo, todos
os dias da semana.
Ao voltar para casa sentia um tremendo mal estar por uma semana.
Na segunda semana em casa, apesar de me sentir melhor, sabia que
era a fase onde tinha maior risco de ficar doente devido à
perda de imunidade, isto sem falar na queda de todos os pêlos
do corpo. Sentia como se estivesse me decompondo. Na última
semana até que me sentia melhor mas logo já vinha
outra quimio. Ou seja, o tratamento mais parece uma sessão
de tortura da época da ditadura.
No mês, só tinha uma semana em que podia dizer: -
Me sinto normal. Claro, poderia me preocupar com o que viria na
próxima semana, mas procurava viver aqueles dias em sua plenitude
aproveitando toda a beleza de viver.
Felizmente estive em mãos de pessoas especializadas como
o Dr. Renato Prado e todo o corpo de enfermagem do Hospital Amaral
Carvalho, que merece menção devido ao carinho e atenção
que tornam esta instituição tão humana.
Para me levar e trazer do hospital contei com a ajuda de meu irmão
Jorge, minha irmã Fátima, meu cunhado Paulo e dos
meus amigos Monica e Rodrigo Polido.
Para agüentar os efeitos colaterais fiquei na casa de minha
irmã Fátima e meu cunhado Paulo que me emprestou a
companhia alegre de sua bela família. Estas são pessoas
que contam com minha eterna gratidão.
Além disso alguns amigos que coincidentemente me procuraram
nesta época, souberam de meu estado e trouxeram seu carinho
e atenção. No meio de tanto carinho e atenção
recebidas agradeço em especial a meus amigos Jorge e Irene
que foram verdadeiros mentores trazendo um intenso suporte espiritual
e psicológico. Com a ajuda deles pude compreender as possíveis
causas internas de minha doença.
Muitos telefonemas, carinho de vários amigos. Dentre os
mais distantes posso citar o telefonema do Argus, direto de Paris,
no meio de sua volta ao mundo em bicicleta, da Inglaterra a Emanoele
e o Ambrosino que sempre me fizeram sentir sua presença a
cada cirurgia e a cada quimioterapia. A todos meus amigos muito
obrigado!!
RECUPERAÇÃO
Após a segunda operação sentia dificuldade
até para caminhar e engordei 10 quilos no tratamento.
Meus parâmetros eram outros, lembro como fiquei feliz, ofegante
e até meio zonzo quando finalmente conseguir caminhar em
volta da quadra.
Lembrei dos 10 km que fazia em uma hora quando comecei a treinar
de bike em Curitiba. Sabia que poderia voltar uma dia a viajar como
eu gosto, mas sabia que teria que me esforçar muito e ter
paciência.
É incrível perceber o quanto é recompensador
investir no próprio corpo, a resposta positiva é imediata.
Nos últimos meses estacionei meu motor-home numa cidade chamada
Timburi-SP. Fiquei ao lado de uma represa e comecei a ter uma rotina
toda especial.
Praticava 4 horas de esporte por dia. Caiaque, caminhada e bike,
um dia para cada um. Além disto lia por pelo menos duas horas.
Agora já perto de partir fiquei só pedalando.
Ainda não sei o quanto a quimioterapia me afetou, ou se,
na verdade, é simplesmente o peso dos meus 40 anos que chegam
em 2006. Só sei que esta viagem tem um gosto de risco, incerteza,
superação e desafio.
Só sei que quero muito fazer esta viagem, cruzar de um lado
para o outro a Cordilheira e conhecer bem esta região tão
fascinante até onde possa chegar, visitando tudo quanto me
alegre aos olhos e com o objetivo único de me deliciar com
a natureza e aproveitar a beleza do mundo que me rodeia e das pessoas
que hei de encontrar.
Agradeço a Deus por estar vivo e saudável, por ter
sonhos para realizar e por ter vontade de fazer coisas.
Quando estava doente não sentia vontade de nada, era como
se meu princípio vital tivesse acabado. Por isto, agora,
faço mais questão de realizar seja lá o que
sonhe, seja lá o que me dê vontade. Isto é vida.
Eu sempre gostei de apreciar a beleza do mundo. Com minhas últimas
experiências senti muito sofrimento o que me fez ver ainda
melhor que o mundo é muito bom e belo e que não posso
desperdiçar nem tempo nem chances de viver tudo que ele me
oferece.
A VIAGEM
É interessante pensar que para mim é mais perto ir
para a Cordilheira dos Andes que para Aracaju. Aracaju tem um sabor
de férias tradicionais e de recreação mas os
Andes me soam como aventura.
Saí de Ipaussu dia 20/10/05 à noite e de ônibus
rumo a Foz do Iguaçu. Montei a bike na rodoviária,
atravessei a fronteira, desmontei a bike na cidade de Puerto Iguazu,
primeira cidade da Argentina.
Neste local é possível conseguir passagens mais baratas
e direto para Mendoza .
Trinta horas depois chegava em Mendoza, já ao lado da Cordilheira.
Em Mendoza, pela primeira vez, me disseram que os passos estavam
fechados devido à enorme quantidade de neve que caiu no inverno
passado.
Saí pedalando da Rodoviária ainda desacostumado com
o estilo de vida em bike. É estranho viver com tão
pouco e estar assim tão vulnerável depois de algum
tempo sob o conforto e a segurança que me oferece o Motor
Home. Acho que os primeiros dias ajudaram a me reabituar.
Perto de Mendoza há muitas propriedades produtoras de frutas,
alho e é claro vinho. A 90 km do centro da cidade ainda me
recusavam um lugar para acampar.
No segundo dia percebi que outubro é muito cedo para começar
uma viagem como esta, fazia frio e para piorar, começou a
chover.
Me abriguei em um ponto de ônibus até que terminasse
a chuva. Sentia frio e o vento só piorava as coisas.
Pedalei um pouco mais e vi uma casa que tinha muito espaço
coberto nos fundos. Parecia garagens.
Parei e pedi para colocar minha barraca sob a cobertura e passar
a noite. Que surpresa tive!
Na casa haviam nove jovens dançarinos de musica folclórica
Argentina e estavam para começar seu ensaio.
Como me senti feliz por estar ali quentinho, seco e assistindo
um espetáculo daqueles. Nunca imaginei que a dança
folclórica era tão popular.
Chacarera, Gato, Zamba, Pollito, Malambo,.... Franco, o instrutor,
me mostrava todos os detalhes que as diferenciavam.
Fiquei imaginando toda a seqüência de acontecimentos
que me levaram a travar este contato com esta gente tão boa!
Provavelmente se não estivesse de bike e se não estivesse
frio e chovendo eu teria simplesmente passado direto pela vila de
Chilecito. Ou seja, os mesmos fatores que me levaram a praguejar
há pouco tempo me levaram a ter esta experiência especial
que me enchia de satisfação.
Depois disto me senti de volta ao espírito do cicloturista,
livre e feliz com tudo que o caminho me oferece. Acabei ficando
uns dois dias com eles e nos despedimos com lágrimas nos
olhos esperando um reencontro algum dia.
Não via a hora de deixar o asfalto e entrar nas pequenas
e tortuosas estradas secundárias de "ripio" (cascalho
e/ou leito natural). Em Pareditas continuei reto e entrei na estrada
de terra pela "Carretera 101" o caminho mais perto da
Cordilheira.
Realmente, como num passe de mágica o tráfego desapareceu
e eu tinha os buracos da pista só para mim. De vez em quando
via uma casinha de pastores com uma fonte de água ao lado.
Tudo ia bem até que uma placa me fez acreditar que estava
quase chegando e acabei afrouxando meus cuidados, nem me preocupei
em pegar água no rio Diamante e segui rumo a Sosneado. Subi,
subi muito e a região se tornava cada vez mais seca. Duas
motos de cross vinham atrás de mim, eram os únicos
veículos que vira durante o dia todo. Os motociclistas eram
policiais de Bardas Blancas e estavam de folga.
Eles me informaram que viram um sítio há alguns quilômetros
atrás morro abaixo. Disseram ainda que iria começar
uma região muito seca e deserta mas que lá na frente
poderia encontrar algo.
Costumo dizer que não volto atrás nem para pegar impulso,
mas antes tivesse quebrado esta regra... Pedalei toda a tarde até
as 21:00 horas e não encontrei nem um arroio de água
suja, fiz 87km em 8:30 horas de esforço físico naquelas
estradas ruins. Quando já não tinha forças para
continuar e o sol já se ia, me sobrava só meia caramanhola
de água. Por sorte, digo muita sorte, os motociclistas deixaram
cair na estrada uma banana e uma maçã frescos que carreguei
com satisfação. A noite puder me deliciar com seu
sabor e aplacar a sede com o suco farto, acompanhado de um tomate
e duas tangerinas que carregava. Felizmente o dia estava meio nublado
e não me desidratei como de costume. De toda a forma tive
muito medo de passar mal, nunca fiquei com tão pouca água.
No dia seguinte tive ainda que pedalar uma hora, até finalmente
encontrar uma fonte.
Chegando em El Sosneado pude relaxar com um banho quente enquanto
pensava em meu projeto.
Confirmei que os passos estavam fechados pela neve e não
poderia atravessar para o Chile. Parecia que meus planos tinham
ido por água abaixo.... Pois bem, que são planos ou
projetos? Nada mais que expectativas do futuro. Mas viver o presente
é sempre muito melhor, já que não posso cruzar
os passos, por que não simplesmente visitá-los? Por
que não aproveitar o que tenho ao invés de reclamar
do que que não posso conquistar?
Continuei meu caminho com este espírito aproveitando toda
a beleza do lugar e a conseqüente abundância de tempo,
assim sendo entrei em Las Leñas (que nem estava no projeto)
só para ver até onde poderia chegar.
Lindo!!! Super!!! Parecia que o inverno havia esperado por mim.
Cheguei a pegar -5.3 Celsus pela noite.
Felizmente estou usando bons equipamentos (MANASLU E SNAKE) que
me proporcionam bem estar em qualquer circunstância.
Passei Las Leñas (mais de 2.200 metros de altitude), pedalei
até as últimas casas de pastores e segui a pé
cruzando trechos com neve até onde o vale ficava tão
estreito que a neve fechava tudo. Incrível!!!
Voltei para a rodovia 40 e rumo ao sul passei por Malargue e parei
por dois dias para ficar conversando com um casal da Nova Zelândia.
Muito legal, eles vinham do Sul e eu do Norte, tínhamos
muito para conversar e idéias para trocar.
A cada quilômetro que eles pedalam, um patrocinador faz uma
doação para a rede do câncer em seu país.
Não é legal?!?! (www.ciclolifeonline.com).
Apesar de ter o padrão Londrino, onde vivem já há
um bom tempo, eles pedalam num estilo parecido com o meu e acabamos
acampando juntos, eles diziam "Quanto mais economizamos mais
tempo podemos viajar".
Silas (29) e Angela (31) saíram da terra do Fogo em 12/09/05,
imagine o frio?!? Pegaram até neve no caminho. Eles querem
ficar um ano viajando e pretendem chegar até Quito no Equador.
Silas tem bastante experiência com viagens mas Angela esta
viajando assim pela primeira vez. Ele é treinador de triatlon,
ela é fisioterapeuta e apesar de não ser acostumada
com bike sempre praticou esportes. Pedalam em uma média muito
boa e estão apaixonados por tudo o que o cicloturismo proporciona.
Angela disse que nunca fez cicloturismo na Nova Zelândia,
mas acha que deve ser muito bom. Veja só, ela vive no paraíso
do cicloturismo e nunca experimentou! Puxa, já estou com
saudades deles!...
Rumo ao Sul, passei por Bardas Blancas e Las Loicas onde encontrei
pouca variedade de víveres para os vários dias que
teria pelas montanhas. Praticamente sobreviveria com arroz, bolacha,
6 latas de patê, 3 cenouras e 4 "mandarinas" (tangerina)....
Mesmo assim saí em direção ao passo de Vergara
(2.859 m), também conhecido como Planchón na Argentina.
Durante dois dias muito duros, pedalei morro acima. Muitas vezes
empurrei a bike na areia e nas dunas. O interessante é que
não é areia de um antigo oceano e sim de vulcão.
Em 1932 houve uma grande erupção do vulcão
Descabeçado Tico (ou Kisapu) que cuspiu tanta areia na atmosfera
que o dia virou noite. Até em Buenos Aires se registrou partículas
desta erupção.
Rochas monumentais faziam os vales dobrar em cotovelos e logo se
abriam em vales magníficos sempre cortados pelo Rio Grande.
Não há muita gente, só os "Puesteros"
as pessoas que tem uma casinha (chamada Puesto) e trazem as cabras
para pastar no verão.
Numa noite eu acampei no meio de um vale bem aberto todo salpicado
de grandes rochas expelidas pelo vulcão. A noite já
chegava de mansinho e dois jovens pastores passaram a cavalo e puxaram
conversa.
Gabriel e Leopoldo não me pareciam preocupados com a vinda
de Bush para o encontro em Mar Del Plata. Levavam grandes sorrisos
no rosto pois as cabras estavam tendo "chivitos" e teriam
que ficar espertos com o "Zorro" (raposa).
Disseram que as cabras geralmente tem 1 ou 2 cabritinhos, mas se
chegar a ter 3 eles tem que tirar um e levar para uma outra fêmea
que tenha um só. "Afinal a cabra só tem 2 tetas!!!"
Apesar do frio (-7.3C) eu passei o Valle Noble e segui até
o ponto onde a neve cortava a estrada. Ali acampei para seguir caminhando
no outro dia. Subi muito, depois desci e finalmente cheguei na massa
de neve que estava provavelmente há poucos km das Termas
de Azufre, podia até sentir o cheiro do enxofre, mas tive
que dar meia volta.
Desci quase à mesma velocidade da subida e não parei
em Las Loicas para descansar, só reabasteci e fui direto
tentar o outro passo, Pehuenche (2.500 m). Este caminho estava ainda
pior.
No começo era por que as máquinas tinham acabado
de fazer a manutenção e a terra estava arenosa e fofa.
Depois, era por que a estrada não tinha nenhuma manutenção
desde o ano passado. Pedras caídas, vossorocas, tive que
desmontar o equipamento da bike para poder passar os equipamentos
um a um por sobre os obstáculos da estrada.
Mais perto do topo, onde não chegam carros nem há
pastagens para o gado, empurrei a bike por sobre vários "Badons",
enormes montes de gelo que cortavam a estrada por centenas de metros.
Logo cheguei novamente aonde o vale se estreita e a neve tampa tudo
de um lado ao outro do vale.
É realmente muito bonito mas tive que voltar dali.
Comecei a gostar de ir e voltar pelo mesmo caminho. Vejo mais detalhes
enquanto volto, parece até outro lugar. É incrível
como a paisagem muda simplesmente por mudar o sentido que se caminha
na estrada.
Retornando a Las Loicas, parei para descansar e aluguei um quarto
da Sra. Mariela, a dona da vendinha. Não sei por que mas
acabei sendo adotado pela família. Logo estava ajudando Vitor
(o marido) a consertar o gerador de eletricidade e passamos um dia
em Malargue onde conheci o resto da família. Uma gente incrível
de beleza, simplicidade e pureza que já não se vê
mais.
Dava dó de despedir, mas afinal algum dia tenho que voltar
para uma visita e talvez possa atravessar estes passos.
Novamente na estrada, pedalei até um entroncamento. À
direita um caminho de terra, a esquerda um outro, supostamente com
mais asfalto. Enquanto penso que caminho tomar, para ao meu lado
uma viatura da polícia estadual. Advinha quem eram? Os motociclistas
que deixaram as frutas!!!
Legal poder reencontrá-los e contar a história de
como fiquei sem água. Claro, não deixei de agradecer
pelas frutas que eles deixaram cair e eu acabei encontrando, ao
que me responderam:
- Não carregávamos frutas, não vimos nenhum
veículo o dia todo, as frutas que encontrou foram um verdadeiro
milagre meu amigo...
Nesta hora até eu fiquei espantado, só sei que aquela
maçã foi a mais suculenta que já comi em toda
minha vida.
Decidi seguir pelo caminho de asfalto, pois estava me sentindo
cansado e com princípio de resfriado, um dia depois fiz uma
parada de descanso em Barrancas divisa entre as províncias
(estados) de Mendoza e Neuquén, onde começa oficialmente
a Patagônia.
Nem por isto as coisas ficaram mais fáceis, já que
as subidas eram íngremes exigindo muito esforço. Tinha
que planejar bem, pois não há abastecimento freqüente
e apesar das extensões desertas busco sempre o lugar ideal
para acampar, e se possível evitar alguns problemas como
uma vez em que só consegui água barrenta pois o rio
Grande recebera muita água do degelo e não havia outra
para as pessoas beberem. Outra vez, encontrei um abrigo do vento
junto aos álamos, entretanto não era o único
a buscá-lo, a prova disto era a quantidade de cocô
de animais a minha volta, de vez em quando dava um "pé
de vento" que enchia a barraca com pó de bosta seca.
O pior foi uma vez que de tão cansado tive que parar no meio
de uma subida, o problema é que o solo era de pura laje e
sem fincar as estacas da barraca, tive que enfrentar uma das noites
de maior vento da viagem, felizmente tenho uma barraca MANASLU!!!
Incrível, bravamente ela manteve sua forma e me abrigou inclusive
contra o chuvisco no meio da noite.
Nem tudo é "roubada", às vezes o caminho
nos reserva belas experiências. Quando estava quase chegando
em Chos Malal, encontrei dois pastores de cabras. Com um sorriso
cordial me ofereceram um pedaço de chivito que assavam no
chão. Tudo muito rústico apenas uma pequena fogueira
e um espeto do lado em que o vento sopra, o pobre animalzinho de
poucos meses de vida possuía uma das carnes mais macias e
saborosas que já comi. Sorte deles que já tinha almoçado
pois minha vontade era comer o espeto inteiro.
Assim como eu, eles vagavam pelo campo auto-suficientes já
há 4 dias. Como eu, carregavam em seus alforjes tudo o que
precisavam. Mas não estavam numa viagem de aventura.
Don Geraldo tinha 68 anos de lida, um homem curtido pelo vento
frio da Patagônia, já não enxergava bem e seus
joelhos lhe traíam e o derrubavam várias vezes ao
dia enquanto subia as pedras do morro. Me disse que chegou a ter
1.000 animais e os perdeu em uma única noite quando a chuva
virou neve e a temperatura baixou tanto que nem as cabras resistiram.
- Eu cheguei a chorar como criança. Disse ele.
Um homem que fabrica seus próprios alforjes e calçados
e que vive de ñaco plantado, colhido, moído e torrado
em seu sítio.
Enquanto eu preparava o jantar ele levantava e sentava subia e
descia o morro para evitar que a criação atravessasse
a pista ou que, dispersa, fosse presa fácil para os "zorros".
Quase 20 dias sem encontrar facilidades como cambio ou internet,
em Chos Malal, fiquei em um camping por 5 pesos (menos de 2 US dólares).
A região parece com o Brasil de 20 anos atrás, onde
podíamos contar com um camping barato a cada cidade e tínhamos
segurança para acampar.
Chos Malal é um entroncamento para vários atrativos
do norte da província de Neuquén e o camping é
movimentado com o ir e vir de grandes viajantes de todo o mundo.
Conversei com suíços e ingleses, mas foi a irmã
Ernestina com uma excursão inteira de crianças que
cantando vieram me convidar para "compartir a sena" (jantar)
com elas.
Infelizmente já havia jantado (os argentinos costumam jantar
muito tarde 21:00, 22:00 as vezes até à meia noite).
De toda a forma, participei da alegre mesa e fotografei as crianças
na mesa e nas barracas. A Irmã com aquele jeitão católico,
logo disse:
- Por Deus!!! Veja, nós não tínhamos nenhuma
máquina fotográfica para registrar o encontro e graças
a Deus que está aqui e pode faze-lo!
- Que é isto Irmã... É só me dar seu
endereço que eu lhe envio umas cópias por e-mail....
Não se preocupe!
Deus salve a Microsoft!!! Pensei eu.
Não sei se foi um agradecimento Divino, só sei que
na manhã seguinte o vento forte parou pela primeira vez desde
que cheguei à cidade e segui rumo noroeste sem muito esforço.
Com tempo de sobra podia me dar ao luxo de visitar mais lugares
ainda que estivesse meio que na contramão como as Lagunas
de Epulafquen. Alias, toda a região ao sul de Las Leñas
até os lagos não é muito comentada nos guias
de viagem apesar de sua beleza.
Tive três dias duros pedalando morro acima ladeando a Cordilheira
do Vento. No último fiz míseros 28 km em 4 horas e
fiquei acabado. Mas o pior foi a chuva que brindou a chegada. Felizmente
o oficial Leiva da "Gendarmeria Nacional" foi bem legal
e me deixou ficar nas dependências do quartel.
O lugar é muito bonito, vindo dos passos do norte esta é
a primeira vez que vejo florestas de altitude, infelizmente as nuvens
não deixavam ver muito mais que o lago e um pouco de montanha
coberta de neve que caiu a noite passada.
Que fazer, além de continuar para o próximo passo?
Pelo mesmo caminho voltei em um dia até Andacollo, fiquei
em mais um camping municipal, desta vez gratuito e reabasteci para
seguir em direção ao passo de Pichachén (2.062
m).
Através de caminhos pedregosos e íngremes cheguei
a mais uma Gendarmeria. O clima não estava muito estável,
mas pela primeira vez os gendarmes me disseram que poderia chegar
até o passo, o limite de fronteira. Mas... infelizmente não
poderia cruzar pois o passo não estava habilitado e as aduanas
ainda não haviam sido abertas.
Deixei meu equipamento no quartel e subi vazio. Realmente a estrada
estava muito ruim e bem no final nem veículos 4X4 seriam
capazes de chegar e só por isto é que o passo ainda
não estava habilitado, afinal, quem dá importância
a quem viaja de bicicleta?
A visão era impressionante. No passo a neve encobria o caminho
até a altura das placas de trânsito. A leste e a oeste
abriam-se vales enormes descendo para cada país e o vento
forte querendo me devolver para a Argentina. Muito mais úmido
o lado chileno me ameaçava com pesadas nuvens negras. Desci
rápido logo depois das fotos.
Continuei rumo ao sul em direção ao próximo
passo Pino Hachado (1.884 m). Este sim, tinha a certeza que estaria
habilitado pois é uma importante ligação e
é um dos poucos passos asfaltados nos dois países
(digo, quase todo asfaltado).
Entrava em uma nova região e comecei a observar uma nova
vegetação. A partir dos 900 metros de altitude começam
as florestas de Araucária Araucana, ou Pehuén na língua
Mupuche, uma espécie pré-histórica (período
Cretáceo) que é "mãe" do "Pinheiro
do Paraná" (Araucária Angustifólia).
O asfalto foi bem até a aduana, onde pela primeira vez carimbei
minha saída no passaporte e encarei o "ripio" até
a fronteira com o Chile, onde além do asfalto perfeito o
dia ensolarado me brindava com 180 graus de vista limpa para vários
vulcões chilenos.
Foi bom aproveitar o clima, pois seguiram-se 3 dias de chuva diuturna.
Acampei selvagem num belo lugar ao lado de um rio e só saía
da barraca para ir ao banheiro, a chuva não dava trégua
e para piorar a temperatura foi baixando a 1 grau, 0 e -1 grau quando
virou neve. Nada mais apropriado, afinal a localidade se chama Serra
Nevada, mas ninguém merece 3 dias dentro da barraca!
Felizmente tenho um tipo de cadeira em que posso me sentar confortávelmente
e ler um livro dentro da barraca. Como dizia meu amigo Ernani "nunca
estamos sós quando temos um bom livro" e assim li a
"Breve História do Povo Argentino" inteirinha.
Claro, ainda pude escutar pelo rádio todos os pontos básicos
das plataformas políticas dos candidatos a presidência
chilena. Desde esta época me simpatizei por Michel Bachelet.
O clima ainda estava chuvoso, mas após 3 dias não
tinha o que comer e apesar de quentinho e confortável em
minha barraca MANASLU tinha que continuar.
No caminho de Curacautin atravessei o túnel Las Raices,
o maior da América do Sul (4.557 m de comprimento). Como
não havia sinais proibitivos entrei no túnel de mão
única sem perguntar nada, do outro lado levei uma bronca
básica dos administradores e é claro dei uma de "João
sem braço".
Já estava pedalando há mais de um mês sem me
preocupar com datas ou horários, o mais importante era meu
estado de espírito e as regras da natureza como o vento e
a chuva. Baseado nestes princípios decidia seguir ou ficar.
Pela primeira vez tinha uma data: 07/12 e um local: Aeroporto de
Temuco no Chile, o ponto de encontro com meu amigo Frank.
Frank é um alemão que encontrei pedalando por uma
estrada do Marrocos em 2003. Seguíamos na mesma direção
e fizemos uma pequena travessia do Saara juntos. Tínhamos
velocidade e interesses parecidos e acabamos viajando juntos duas
semanas.
Desde então ficamos planejando uma outra viagem. Em 2004
estava tudo certo, ele já tinha até comprado a passagem
para a gente viajar pelo Chile mas teve que desistir pois eu havia
começado meu tratamento contra o câncer. Mesmo assim
não desistimos da idéia e finalmente lá estava
eu esperando ele no aeroporto.
Dusseldorf, Madri, Santiago e Temuco, após mais de 17 horas
de vôo o Frank pegou a bike que veio toda montada no avião,
colocou os alforjes e saímos pedalando naquele dia frio e
chuvoso. Taí um grande companheiro!!
Muita história para contar, planos de trajeto, um dia de
aclimatação e seguimos nosso caminho para o passo
de Icalma (1.303 m).
Primeira parada em Melipeuco, onde visitamos no P.N. Conguillio
Los Paraguas o Vulcão Llaima (3.125m) e a Laguna Verde. Uma
região cheia de cicloturistas e famosa por servir de cenário
para um especial sobre dinossauros, feito em animação
pela BBC (me parece que o Fantástico veiculou esta série).
Àparte da fama, é uma sensação diferente
pedalar por entre montanhas de magma, de cor negra absoluta e textura
áspera. Com uma fronteira muito clara observamos os caminhos
da lava em negro e as florestas poupadas em verde. Só pedalei
assim no P.N. Crateras da Lua - USA, mas sem a beleza do vulcão
nevado.
Os números nem sempre dizem tudo. Apesar do passo ser mais
baixo, ao entrar no Chile perdi muita altitude e para piorar o "ripio"
chileno é feito com pedras grandes, um horror para bikes
principalmente nas subidas. Levamos quase um dia todo empurrando
a bicicleta para fazer 12km.
As Araucárias voltaram a aparecer, mas desta vez junto com
uma exuberante floresta devido à maior umidade do lado chileno.
Papéis, aduana e novamente asfalto novinho descendo para
o lago de Aluminé na Argentina.
Acampamos na margem leste. Enquanto preparávamos o jantar
e tomávamos uma garrafa do bom vinho nacional podíamos
apreciar as mudanças de cores da paisagem devido ao por do
sol. Este foi o mais belo camping selvagem da viagem.
Minhas impressões bateram com as de Frank. A Argentina se
mostrava mais interessante para viajar de bicicleta. As grandes
extensões desertas davam um ar mais selvagem que facilitava
os campings livres. As pessoas eram ainda mais receptivas que no
Chile e tudo era muito mais barato. Sendo assim decidimos fazer
os passos sem entrar no Chile evitando o mau "ripio" e
a perda de altitude.
Ao retirar o trajeto dentro do Chile nosso roteiro ficou ainda
mais folgado, pudemos descansar um dia e no outro visitar o lago
Rucachoroy. A comunidade Mapuche dá um colorido a mais ao
caminho e ao lago, pois pudemos observar sua forma de trabalhar
bem como os belos artesanatos.
Por um vale estreito e intrincado descemos o rio Aluminé
admirando o contraste da vegetação das margens e o
pampa seco que se forma no platô logo acima.
Nosso próximo passo se chama Mamuil Malal (1.253m). O antigo
nome oficial era passo Tromen, referência ao lago perto do
passo. Entretanto, desde épocas remotas, quando a Patagônia
tinha maior relacionamento com o Chile devido a distância
de Buenos Aires, os chilenos chamavam a região argentina
de Mamuil Malal que é um tipo de cercado de animais em Mapuche.
Depois virou o nome de uma fazenda gigantesca que se estende pelos
dois lados da estrada por 50 km.
Claro, não havia outro lugar para acampar e pedimos para
o próprio "patron", Don Bertil. Seu avô veio
da Suécia e comprou as terras e construiu uma belíssima
fazenda com total auto-suficiência, tem até um velho
gerador eólico. Hoje Don Bertil vê o asfalto cortar
sua propriedade enquanto joga pólo com seus filhos (um verdadeiro
esporte nacional por aqui).
Tranqüilo e simpático, após contar belas histórias
ele nos indicou um lugar para que ficássemos junto aos álamos
nos protegendo do constante vento.
Perto do passo começa o P.N. Lanin, o nome do vulcão
de 3.776 m que está logo ao lado da aduana. Do outro lado
um camping chamado "agreste". Nestes lugares podemos contar
somente com água e nada mais, entretanto é grátis
e nem por isto o lugar cheira mau ou tem um monte de lixo, bem ao
contrário. Este equilíbrio quase não existe
no Brasil, ainda mais se falar-mos em Parque Nacional. Em nosso
país está cada vez mais difícil de ficar junto
à natureza e simplesmente apreciar a beleza que ela nos dá
de graça. Uma visão equivocada de desenvolver o turismo
nos obriga a gastar e ir distribuindo dinheiro como se estivéssemos
em um parque de diversões pagando por cada brinquedo que
entramos. Quem já foi para Brotas-SP sabe do que estou falando.
Desta forma caminhamos até o lago Tromen que mais parecia
um mar, não só pelo tamanho mas pelas ondas de quase
um metro que se formavam pelo vento forte.
Aproveitando o impulso do vento que geralmente sopra para o leste
descemos em direção a Junín de los Andes. Esta
foi a primeira cidade onde sentimos que estávamos em uma
região de veraneio. Só não haviam muitos turistas,
mas disseram que o forte é a partir de 2 de janeiro.
Por estradas pouco movimentadas seguimos para o passo Carirriñe
(1.180m), que foi o mais selvagem de todos. Para se ter uma idéia
a aduana fica a quase 50 km do passo, todo o resto fica meio que
abandonado. A estrada não é tão ruim mas se
vê que não passa mesmo muita gente, apesar da beleza
do caminho que segue subindo e descendo sempre costeando os vários
lagos, Curruhue Chico e Grande, Laguna Verde e Carilafquen. É
um cenário de beleza impressionante onde a natureza brinca
com apenas três cores: O azul do céu, o branco do topo
das montanhas e o verde dos lagos e das florestas exuberantes.
Como se não bastasse toda esta beleza ainda há outros
atrativos como as termas e um caminho feito pela lava do vulcão
Colorado que entrou em erupção em 1.600.
A cada dezena de quilômetros uma área de camping mais
bonita que outra e tudo isto grátis e seguro. Uma moça
com sua filha acampavam sozinhas na Lagoa Verde enquanto o marido
estava pescando. Nem se pensa em perigo.
Para mim este foi o passo mais bonito!
Continuando a viagem, já quase chegando a San Martin de
los Andes passamos pelo lago Lolog. Nossa como são belos
os lagos!! Todos com águas cristalinas de cores que passam
de verde à azul conforme a luz do dia reflete, mas, de perto
são sempre translúcidos e nos mostram até as
pedras do fundo. Ficávamos horas observando sem cansar.
Chegamos na cidade na tarde de 24 de dezembro e logo vimos que
estávamos bem servidos de tudo o que uma cidade turística
pode nos dar como bons restaurantes e tudo o mais. Natal e meu aniversário,
decidimos trocar o cardápio de quem tem que carregar o menu
para até 4 dias na estrada por um bom restaurante.
Nos instalamos sem pressa na "Hosteria Las Lucarnas"
perto do centro e já a noitinha quando saímos para
buscar um bom restaurante vimos Maria a dona da pousada preparar
a mesa para cear sozinha com uma amiga. Sinceramente fiquei até
meio triste com a cena. Entretanto, Maria, falante e alegre, disse
que apesar da cidade ter muitos restaurantes não seria fácil
encontrar uma vaga sem ter feito uma reserva para a ceia de Natal.
Disse ainda que qualquer problema poderiamos voltar e compartilhar
com elas. Bem, eu gostei do convite e do carinho, mas imaginava
meu Natal um pouco diferente.
Saímos confiantes e buscamos as melhores casas e de preferência
com assado. Nossa! Só havia um menu especial de natal muito
caro e mesmo assim tudo lotado.
Depois de visitar uma meia dúzia deles já estávamos
querendo fazer qualquer negócio, cheguei a dizer:
- Veja... A gente janta agora que ainda é cedo e depois
vem os argentinos mais tarde e jantam de novo...
Sempre a mesma reposta mecânica:
- Me desculpe, mas sem reserva não dá.
Continuei:
- Tudo bem, o senhor me faz um marmitex e a gente vai comemorar
o natal e meu aniversário na praça, pode ser?
A resposta dele quase me irritou.
- Desculpe mas com o menu reservado, o planejamento da comida é
exato. Não dá...
A falta de sensibilidade chegou a deprimir, foi então que
o Frank disse:
- Bem, vamos passar o Natal na pousada com a Maria.
Pegamos umas garrafas de vinho e lá fomos nós nos
juntarmos à mesa. Mais tarde, um casal de alemães
Bernardo e Cristina tiveram a mesma experiência e a mesa ficou
cheia e barulhenta com Inglês, alemão e espanhol, uma
verdadeira festa. Maria, que é descendente de italianos,
calculou a comida para duas pessoas, mas comemos em seis e ainda
sobrou.
Maria e eu tivemos a mesma impressão que se resume em uma
frase que ela disse:
- Há tempos não vivia um natal tão gostoso
em que sentia tão forte seu espírito, a fraternidade!
Em situações assim, vejo o quanto cada ser humano
é especial. Vejo que o Universo realmente cuida de nós
e de nada adianta preocupar-se muito com o futuro já que
afinal "o amanhã guarda seus cuidados".
Com um ano a mais nas costas (39), saímos para o passo de
Hua Hum (620m). O mais baixo e o menos interessante. O caminho está
bem longe do lago Lacar, a única coisa que vimos foram subidas
e descidas íngremes, pedras soltas, poeira e muita, mas muita
mutuca. Não dava nem para fazer uma parada de descanso.
Felizmente ao final há belas áreas de camping ao
lado do lago. Desta vez resolvemos entrar no Chile mas simplesmente
para fazer uma travessia de ferry pelo lago Pirehueico. Seis dólares
com bike e tudo, mesmo com o tempo nublado valeu a pena. O lago
é bem estreito, as matas parecem intocadas e os morros surpreendem
pela forma que sobem, íngremes, a partir da margem. Imagino
como deve ser belo com o dia claro!
De volta a Argentina decidimos pegar um barco para San Martin de
Los Andes através o lago Lacar. Melhor que pela já
comentada estrada horrorosa!
Tudo estava planejado, depois daquele Natal tão especial
Maria nos convidou para um cordeiro assado na lareira da pousada
no último dia do ano. Que delícia!!
Perto da meia noite já estávamos na praia do lago
para ver os fogos. Lindo!! Uma festa regada a música brasileira,
para minha surpresa.
Em primeiro de Janeiro não conseguimos sair muito cedo por
causa da ressaca básica, mas foi um dia de encontros muito
especiais.
Primeiro foram Mariano e Mercedes, um romântico casal de
argentinos viajando de bicicleta pelos sete lagos pouco antes de
seu casamento. Depois o interessantíssimo Hans, alemão
viajando com um super Land Rover todo preparado como motor home,
só não tinha chuveiro. Ele é fotografo de viagens,
trabalha para uma editora de guias e também está fazendo
fotos para um guia da UNESCO .
Para finalizar, pouco antes de terminar a pedalada, encontrei ao
longe nossa bela bandeira nacional flamulando em meio a um grupo
de quatro bicicletas. Era a Fabiane de Curitiba junto com seus amigos.
Eu sabia que eles pedalariam por esta região e sabia que
de alguma forma eu iria encontrar com eles. E foi assim, sem qualquer
plano no meio da rodovia, justamente como há um ano atrás
quando os encontrei perto do Caraça em MG enquanto faziam
a Estrada Real.
Nossa, estava demais!! Oito bicicletas encostadas ao lado da pista,
o vento era frio e ameaçava vir muita água, mas ninguém
se movia dali. Os oito cicloturistas se abraçavam e cumprimentavam
falando sem parar... Eu nem me continha, não sabia qual a
última vez que falara português. Um dia muito especial,
infelizmente tínhamos que continuar em caminhos opostos.
Os encontros não eram exatamente uma coincidência,
na verdade existe uma explicação.
Acabávamos de entrar na região dos Sete Lagos a região
mais bela por km rodado de toda a viagem.
Somando-se a isto começavam as férias dos argentinos
e os caminhos de terra viraram um verdadeiro congestionamento de
carros e bicicletas.
Vi muitos grupos argentinos de bicicleta e era fácil de
reconhece-los: Geralmente levavam uma grelha de ferro na bagagem
e ou uma cuia com garrafa térmica para chimarrão.
Aliás, vi muitos mochileiros com a tal da grelha de ferro
nas costas. Cada um tem uma visão do que é essencial.
Acampamos no lago "Hermoso" e no lago "Chico".
Mas acabamos não acampando no lago Falkner, eles são
todos bem pertinho um do outro e em muitos o camping é livre
mesmo estando dentro do P.N. Arrayanes.
Quando chegamos em Villa la Angostura a chuva chegou junto. Algo
parecido com uma ducha diuturna em cima da barraca. Um saco!
Em meio a este clima adverso, em um jantar com Andre e Paula motociclistas
de Blumenau, começamos a pensar sobre o final de nossa viagem
de bike.
Nunca tivemos dificuldades para definir qualquer roteiro e dentre
as opções de tempo, dinheiro e logística, acordamos
que deixaríamos de ver a movimentada Bariloche e atravessaríamos
para o Chile pela última vez aproveitando um pouco mais deste
país.
Com clima chuvoso atravessamos o último passo da viagem,
Cardenal Antonio Samore (antigo Puyehue, 1.321 m). Em meio à
densa floresta muitas vezes intocada, chegamos às termas
e ao lago Puyehue. Além do agradável calor e das propriedades
terapêuticas das termas, a estrada costeando o lago nos brinda,
a cada curva, no fundo da paisagem, com uma nova cachoeira como
um fio de prata cortando a mata densa. Aos lados, os vulcões
Puyehue (2.240m), Casa Blanca (2.240m) e Osorno (2.652m) e no meio
o Cerro Puntiagudo (2.190m).
Um descanso em Ensenada, nas margens do lago Llanguihue e entramos
no último atrativo da viagem, o Estuário Reloncavi.
A quase oitenta quilômetros da baía a água é
salgada, os morros escarpados e há salmoneiras para todos
os lados. Mas, o que diferencia dos outros cinco países do
mundo que possuem fiordes, são, sem dúvida, os vulcões.
Por seis semanas passamos as 24 horas do dia juntos e agora era
hora de partir. Frank pegaria um avião em Puerto Montt e
eu um ônibus.
Depois de 6 semanas juntos em 17 de Janeiro deixei o Frank no aeroporto.
Em meio a um forte abraço e vários planos de novas
viagens nós nos despedimos. Em 18 de Janeiro eu montava em
um ônibus para ficar 3 dias na estrada até chegar de
volta a Ipaussu , minha cidade natal.
Pela janela do ônibus apreciava o infindável pampa
argentino enquanto digeria as impressões e vivências
desta região tão bela e ainda pouco explorada. Ainda
estava cansado, mas já começava a fazer planos para
a próxima.
Bagagem para Patagônia:
Muitas vezes
as pessoas me perguntam: O que levar em uma viagem de bicicleta?
Tendo em vista o trajeto que pretendo seguir em
minha nova aventura entrarei em detalhes fazendo uma verdadeira
lista de tudo que, para mim, é imprescindível e ou agradável carregar
nesta específica viagem.
BICICLETA:
Vou utilizar a mesma bike que fiz as viagens na
Áustria, 7 Passos Andinos e Marrocos.
Mesmo sendo o quadro de Cromo Molibdênio o mais
indicado para o Cicloturismo, minha atual bicicleta é de alumínio.
Segundo meu amigo Luiz Kuhlmann, o autor do projeto
dela, o tratamento feito após a solda lhe confere a robustez que
necessito. Devido a experiência com a bike (creio que estas foram
as viagens mais duras que já fiz), passei a confiar nesta magrela;
Três suportes de garrafas convencionais e um para
garrafas de até 2 litros;
Descanso lateral (pesinho para deixar a bike de
pé sozinha);
Câmbios shimano, 21 marchas do tipo alívio com
V-Break;
Bagageiros de alumínio soldado e preso com parafusos
(nada de rebites que com o tempo fazem barulho);
Bar end para mudar a posição da mão.
Pneus de excelente qualidade (que suportam alta
pressão).
Cabos e capas de cabo novos.
Catraca e corrente novas.
Coroa original (a menor com 24 dentes).
BARRACA:
Para as pessoas que pensam em ficar um bom período
viajando a escolha de uma boa barraca é algo imprescindível.
Quando eu divido o preço de uma barraca pelo total
de noites que a utilizei sempre chego a um valor realmente irrisório
que corresponde apenas a uma fração mínima de uma hospedagem barata.
Durante os 3 anos e meio da volta ao mundo, sempre
utilizei uma única barraca MANASLU. Montei e desmontei quase todos
os dias da viagem e até hoje ainda a monto quando faço uma exposição.
Sou fascinado por este modelo chamado trekking,
ele tem um único arco, é fácil de montar e muito leve.
Entretanto, como pretendo fazer Patagônia, vou
utilizar o último modelo da MANASLU chamado Discovery Light.
Minha mudança provavelmente será definitiva pelos
seguintes fatores:
Espaço para até duas pessoas e bagagem;
Leve, só 2,6 kg;
Três arcos trançados que resistem muito bem ao
vento;
A altura interna é confortável e o desenho aerodinâmico
permite monta-la com os pés do lado do vento minimizando seus efeitos;
Assoalho tendido que não encosta no solo, evitando
umidade;
Extremamente fácil de montar e desmontar pois os
arcos não saem das guias e praticamente é só "enrolar tudo
e pronto".
Alto-sustentável, não precisa de fixação no solo;
Avance frontal para guardar equipamento;
ALFORJES:
Utilizo uma bolsa de guidão e alforjes traseiros
completamente estanques. Nunca tenho problemas com chuva.
Três pequenas bolsas de quadro para ferramentas,
peças de reposição e utensílios práticos.
Mochila-pochete (capacidade 6 e 15 litros), onde
pretendo carregar pequeno equipo fotográfico (foto equipo 10).
PARA DORMIR:
Estimando que enfrentarei temperaturas oscilando
entre cinco graus negativos até 40 positivos e que as temperaturas
negativas, quando houverem, serão, provavelmente de noite, optei
pela seguinte combinação:
Uma barraca Discovery Light de verão para as noites
muito quentes nas áreas baixas e para as áreas altas utilizo um
saco de dormir de pluma de ganso de alta qualidade (pagina 130 de
meu livro foto equipo 2);
Depois de fazer a volta ao mundo como um isolante
térmico de espuma densa, acabei experimentando e adotando o isolande
térmico inflável devido ao seu extremo conforto(foto equipo 30).
Além disto o isolante inflável se adapta a minha
cadeira (foto 11) que serve para relaxar apreciando o crepúsculo
ou para curtir melhor a melancolia dos dias de chuva.
ROUPAS:
2 Camisas de abotoar e de manga comprida feitas
de tactel. Protegem do sol e do frio (veja teoria das 4 camadas
na página 25 de meu livro). Gosto dos botões pois posso pedalar
com a camisa aberta no calor (foto equipo 16);
2 Camisas de manga comprida feitas de algodão (geralmente
para dormir) (foto 16);
1 Pulôver muito fino sintético (18);
1 Blusa de polartec (3);
1 capuz de motociclista daqueles que cobrem até
o nariz feito em material sintético (13);
2 Calças compridas uma de tactel que transforma
em calção e outra de algodão fino (7);
1 Plástico aluminizado para emergência hipotérmica
(28);
1 Calção de tactel (17);
3 Meias grossas para caminhada (20);
1 Meia de lã (20);
1 Calção de nadar (12);
3 Cuecas (12);
1 Par de luvas de ciclista com gel (19);
1 Par de luvas para esqui feitas de neoprene (21);
1 Super botina SNAKE (15);
1 Conjunto de anorak MANASLU com calça e blusa
(14);
1 Chinelo (8);
1 Toalha seca (daquelas que é só torcer e pode
guardar molhada) (27).
1 Agulha e linha forte;
COZINHA:
1 Fogareiro a álcool (foto equipamento 25); panela
inox de um litro (22); prato de melamina (23), caneca plástica (24),
garfo e faca (29), canivete suíço (com saca rolha, afinal vou para
o Chile, terra de bom vinho), saco para 4 litros de água (1), esponja,
sabão biodegradável.
1 Lanterna de led acopláveis na cabeça (serve para
cozinhar e como sinalizador para a bike 100 horas com 2 pilhas AAA)
(26).
Rádio FM/AM com ondas curtas e alto-falante (6),
fones e 2 pilhas;
1 Termômetro com memória para máxima e mínima (4);
1 Odômetro;
1 Óculos escuro;
FERRAMENTAS:
Cada bicicleta possui algumas particularidades
e é importante saber e poder realizar pelo menos os seguintes reparos
em uma viagem:
Trocar e remendar câmara de ar;
Trocar raio e centrar o aro ainda que precariamente;
Regular e trocar os cabos de freio e câmbio;
Limpar e ou trocar os rolamentos das rodas;
Apertar e soltar todos os principais parafusos
da bike (como guidão, bagageiro, pedais, etc...);
Peças de Reposição e Ferramentas (foto ferramentas):
1 Câmara de ar (4);
1 Cabo de freio e 1 de câmbio (13);
1 Par de sapatas de freio (7);
4 Raios comuns e 2 raios de cabo de aço especiais
para a raiação esquerda da roda traseira (dá para trocar sem remover
a catraca) (1 e 2).
1 Alicate (10);
1 Chave para abrir corrente (5);
1 Chave para apertar raio (3);
1 Bomba de ar com corpo de alumínio (15);
1 Kit de reparo para furos em câmara de ar (6);
1 Chave de fenda combinada com cruz (12);
1 Chave alen dos tamanhos 6, 5, 4, 3 (8);
1 Chave de boca das medidas 8, 9, 13, 14, 15, 16,
17 (9);
1 Par de espátula para tirar o pneu (14);
1 Pedaço de cerra de metal com um pouco de silvertape
enrolada (11);
1 Óleo para corrente;
1 Trava de 1 m e 1 pequena;
1 estensor de borracha.
FARMÁCIA:
Tenho por hábito nunca tomar remédios, prefiro
absorver os sintomas que muitas vezes são reações naturais do corpo
em seu combate a fadiga e/ou a certas doenças e agressões externas.
Sempre carrego a farmácia mas nuca a utilizo.
Por outro lado consumo com regularidade vitaminas
e sais minerais para compensar a alimentação precária de certas
áreas;
Os comentários a seguir me foram fornecidos por
meu irmão, Jorge Ferreira, que é médico:
Cordia verbenacea DC: pomada para batidas e contusões;
Metoclopramina: Para vômitos. Tomar de 8 em 8h.
Metoclopramina injetável no caso de vômitos intensos;
Butilbrometo de escopolamina e dipirona sódica
(buscopan): Para dor em geral e febre 30 gotas de 8 em 8 horas;
1 Hidrosteril (purificador de água);
1 Tala elástica;
5 band-aid;
ISTO TUDO FAZ EXATAMENTE 15,4 KG DE BIKE SECA SÓ
COM OS SUPORTES, MAIS 19,2 KG DE TODO O RESTO DO EQUIPO INCLUSIVE
A ROUPA DE CORPO. OU SEJA 34,6 KG SEM ÁGUA E COMIDA E HIGIENE.