(matéria publicada na REVISTA BICICLETA – edição 59 – fev/2016)

Quando alguém nos pergunta que saco de dormir deve levar em uma viagem de bicicleta, geralmente respondemos que o saco deve ser de capacidade média para ser versátil, protegendo bem na maioria das situações sem tanto volume ou peso.

Aconselhamos que busquem um saco com um desenho em forma de sarcófago (menor na altura dos pés que no tronco), mas que permita ser totalmente aberto e com temperatura de conforto por volta de -5 °C.

– Mas, e se fizer menos que -5°C?

Bem… Aí é por que você está em lugar errado ou na hora errada…

Pedalar em uma região com temperatura menor que -5°C não é uma boa experiência. Na volta ao mundo todas as pessoas que conheci na Europa me aconselharam a passar o inverno em regiões mais quentes, mas eu insistia que queria ver neve.

O inverno na Europa foi uma das partes mais tristes e difíceis da viagem e eu só vi cair neve em dois dias desse tempo todo. A temperatura mais baixa durante o dia foi registrada quando cheguei a Amsterdam, -8°C pela manhã (igual ao congelador de uma geladeira comum). Tive que mudar o sistema de viagem, pois a noite era muito longa (das 17:00h às 08:00h). Tentava pedalar o mais rápido possível e só parava na hora de acampar ou em algum lugar abrigado. Tudo que carregava ia congelando, desde a água da caramanhola até meu lanche. A única coisa que dava a sensação de aquecer era quando comia um chocolate, que nessa região é conhecido como melhor do mundo. Para meu azar, furou o pneu e tive que fazer o serviço o mais rápido possível para me manter aquecido.

Em nossa viagem pelos salares e desertos, queríamos pedalar pelo salar de Uyuni em pleno Altiplano Andino. O problema é que no verão o salar fica cheio de água, tínhamos que ir no inverno, que é a estação seca.

Quando viajamos pelo Peru (2011), experimentamos o começo do inverno altiplânico e acampamos a -11,7°C. Não foi nada agradável, sabíamos que nosso equipamento normal não seria suficiente para o que queríamos fazer.

Durante o dia o Altiplano é sempre ensolarado e com temperatura amena, mas a média noturna costuma ficar em torno de -17°C. Como fazer para suportar esse frio?

– É só comprar um saco de dormir para -20°C.

Sim, claro, isso parece lógico, mas o que faço com um saco desses depois da viagem? Além de ser caro e difícil de encontrar para comprar em nosso país, todo esse investimento seria inútil depois da viagem.

Algumas pessoas que nos conhecem melhor sabem que fazemos parte de uma seita secreta que está espalhada por todo planeta. A seita dos “pão duro” também conhecidos como “munheca”, “mão de vaca”, sovina, etc… Com a crise, a seita tem encontrado cada vez mais adeptos. Como ocupamos o alto grau de “Grão Mestre”, não podemos dar mal exemplo e tínhamos que encontrar outra solução.

Existe um equipamento que geralmente é utilizado para proteger o saco de dormir da sujeira do corpo de quem dorme dentro. Nada mais é que um saco de tecido que acaba aumentando a proteção térmica do saco, pois acrescenta uma camada extra ao sistema. Lembra-se do sistema de camadas? Nunca utilizamos esse equipamento, mas começamos a imaginar a possibilidade de aproveitar nosso saco de dormir para verão e termos uma proteção extra.

– Mas até quantos graus esse sistema suportaria? Como testar isso em nosso país tropical?

Não sabíamos… Talvez somente se entrássemos em um grande frigorífico para testar. Mesmo assim, teríamos que dormir dentro para ver se funciona mesmo…

Em uma longa viagem, um cicloturista pode necessitar passar por locais muito frios. Nem sempre é aconselhável levar de casa equipamentos pesados para enfrentar esse tipo de dificuldade por uma pequena porcentagem de tempo da viagem. A lógica é que onde faz frio existe equipamento de frio para comprar, pode não ser o ideal para um cicloturista, mas evitará que carregue por longo período equipamentos pesados e volumosos. Baseados nessa tese, resolvemos tomar o risco e, se fosse o caso, compraríamos mais equipamentos no caminho.

Começamos nossa viagem por La Paz, no inverno, e na primeira noite que acampamos estávamos a cerca de 4.000 metros de altitude.

Nosso saco de dormir tem temperatura de conforto -2°C e é feito de pluma de ganso. Com toda a tecnologia existente, a pluma continua sendo um dos melhores materiais, pois é leve, extremamente compactável e ótimo isolante. Ao contrário dos materiais sintéticos, a pluma não perde sua elasticidade e, mesmo que comprimida várias vezes, volta a “inchar” e fazer uma camada de ar que nos protege do frio. O problema da pluma é que a cada dia uma pequena quantidade de pluma sai do saco e ele vai ficando cada vez menor e menos eficiente.

Nosso saco já contava com sete anos de vida e perdeu muitas plumas, principalmente na altura do tronco. Por cima dele colocamos o segundo saco que é feito de uma fina camada de fleece (ou polar).

Nessa noite, a temperatura baixou para -5°C e dormimos confortáveis com esse sistema. Sabíamos que se a temperatura baixasse mais, poderíamos ainda vestir nossos casacos e outras roupas que carregávamos.

Saco de dormir congelado.

Noite após noite, a temperatura foi diminuindo até uma manhã em que registramos -20,6°C. Ficamos impressionados, pois não acordamos com calafrios. É certo que vestimos todas as roupas que possuíamos, mas sentíamos que esse era o novo limite de nosso equipamento. Confirmamos nossas observações no dia dois de julho quando acordamos com o frio e registramos a temperatura mais baixa da viagem: -22,4°C. Felizmente, no geral, a temperatura mais baixa acontece pouco antes do sol nascer e nos aquecer com sua luz.

Todas as noites nos sentíamos um pouco tensos, pois ninguém pode prever o clima, nossa segurança era ter sempre um bom estoque de álcool para aquecer-nos em uma emergência.

– Mas por que não foram para a região em outra época? Primavera ou outono?

Para cumprir o circuito que planejamos, teríamos que ficar muito tempo nessa área. De toda forma, ou pegaríamos o salar ainda com um pouco de água, ou pior, com vento.

Após um mês de viagem o vento começou a se fazer mais presente e as pessoas do local diziam que ele aumenta sua força conforme termina o inverno. Qualquer ciclista experiente sabe como é ruim o vento, ele só pode ajudar em 30% dos casos, quando vem pelas costas, mas isso parece nunca acontecer na prática.  Por outro lado, frio e vento combinados aumentam exponencialmente a sensação térmica, por exemplo: em um local onde a temperatura externa é de -6°C, se tiver um ventinho fraco de 11 km/h, o frio que sentimos (a sensação térmica) é de -11°C.

A partir da metade de nossa viagem pedalávamos cheios de blusas justamente por causa do vento. Em nossas fotos os dias estão sempre ensolarados e mal dá para imaginar o frio que se sente no local. Durante a noite, tínhamos que colocar nosso estoque de água perto de nosso corpo, senão, no outro dia, não podíamos fazer café, pois só teríamos uma pedra de gelo de dois litros dentro da garrafa. Até o protetor solar congelou dentro da bolsa de guidão.

Quando montávamos o acampamento ainda estávamos quentes e, dentro da barraca, antes do sol se por, retirávamos nossas roupas de pedalar e vestíamos todas nossas roupas obedecendo o sistema de camadas (inclusive as roupas de chuva para funcionar como corta vento).  Além do vento, a fome pode aumentar a sensação térmica, pois não temos energia circulante para aquecer o corpo.

Cozinhando dentro da barraca

Muitas vezes cozinhávamos dentro da barraca para melhor nos aquecer e manter-nos protegidos do vento. Quando a comida estava pronta, nos servíamos imediatamente, mas era como cozinhar uma bela macarronada e colocar dentro do congelador (que equivale àquela temperatura externa). Mesmo comendo rápido, nunca conseguimos terminar o prato antes de a comida ficar totalmente fria.

Uma vez que a comida chega ao estomago, começa a digestão e todas nossas energias vão para essa tarefa, por isso, no geral, sentimos letargia após o almoço. Após o jantar nos enrolávamos em nossos sacos de dormir, mas não conseguíamos evitar os calafrios, pois não havia energia sobrando para aquecer o corpo.

A única forma de se sentir bem era tomar um chá quente. Mas atenção, não esqueça que a 4.000 metros de altitude a água ferve a pouco mais de 80°C e não a 100°C como no nível do mar. Nessas condições, quando preparamos arroz ele geralmente fica papa e crocante. Mesmo para cozinhar um ovo, que no Brasil geralmente demora cinco minutos, na altitude leva quase dez minutos para fica bem duro. Tomávamos o chá rapidamente para aproveitar seu já diminuído calor.

A umidade aumenta o desconforto térmico tanto no frio como no calor. No geral, quando o frio é assim tão intenso, o ambiente fica seco, pois a umidade congela. Os salares são lagos intermitentes, apesar de sua superfície seca, ainda existe muita umidade por baixo da placa de sal. Em todas as noites que dormimos no salar, sentimos calafrios por causa dessa umidade, mesmo estando em temperaturas menos severas. Na Bolívia, até quando decidíamos descansar em um “hotel”, a temperatura do quarto podia chegar a 1°C.

Viajar por tanto tempo em condições tão duras ajudou a transformar essa viagem na mais difícil já que realizamos. Realmente chegávamos aos nossos limites de resistência pessoal e de nossos equipamentos. A experiência de chegar ao limite é sempre arriscada, pois entendemos que quando transpomos nosso limite real, se é um limite, sempre temos consequências indesejadas como hipotermia (no caso do frio).

Amanhecer a -15 graus.

Aconselhamos cuidado e responsabilidade a todos que planejam uma viagem por lugares muito frios, arrisque-se em doses homeopáticas e tenha sempre um plano “B”. Após as primeiras experiências verá que pode conviver com o frio, desde que tenha um equipamento compatível.

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